Amigos abandonados
Estima-se que haja um contingente de 38
milhões de cães abrigados em 40% das residências
brasileiras, dos quais, a parte de convivência varonil,
de mimos e manias, alavanca um mercado de mais de R$10 bilhões,
pago pela humanização, a perda da identidade
canina. Enquanto isso, 20 milhões vagam na reta linear
da razão: 30% pela falha tutelar e 70% pelo livre
arbítrio canino de escolher, de fugir da vida sinistra
de cachorro sem liberdade, em razão dos maus-tratos,
dos insanos foguetórios, a do mundo vazio, sem direitos
às aventuras.
A multiplicação desordenada
condena o poder público, ausente nos investimentos
de controle de natalidade. Não realiza as castrações
em massa, não investe na infraestrutura dos canis,
na escolha e no preparo de seus veterinários. Ignora
as leis de proteção, não faz parcerias
e convênios com entidades protetoras, universidades
e clínicas veterinárias. Esse descaso implica
numa superpopulação, da qual somente 20% conseguem
moradia definitiva. Os demais seguem os riscos de morte
por uma simples necrose cutânea.
Quem compra um animal tira a chance de
outro deixar as ruas, e edifica um comércio que não
se importa com o que vende, nem tampouco com o perfil do
comprador.
Na verdade, desde a aurora dos tempos
o ser humano amou e odiou os animais. Fantasiou, invejou,
rejeitou, humilhou e os exaltou. Depois de uma identificação
com eles, os colocou sob seu domínio, pela domesticação,
escravidão. Ainda há os que observam um cão
tristonho, medroso, deprimido, de rabinho entre as penas,
implorando ajuda, sem se incomodar, porque são vítimas
do espelho da ignorância, do retrovisor antropocêntrico,
que reflete a imagem soberana do homem, para o qual tudo
deve ser feito, como a única espécie a ter
direitos e merecer respeito.
Não é só nas fábulas
que os animais sonham e pensam. Na realidade, muitos se
alfabetizam, falam certos dialetos e belos comportamentos,
que, aliados à sua estrutura anatômica, a bioquímica
de seu sistema nervoso, a capacidade de receber mensagens
telepáticas, os fazem aproximar cada vez mais do
homem. É um alerta aos criacionistas, adoradores
da cruz e que cometem a idiossincrasia ao rejeitar a escalada
de genes que coloca os animais como uma única espécie,
sem distinção.
No pensamento moderno, evolucionista,
há muito que ser aplicado já nas pré-escolas,
para que as crianças quebrem o pensamento rançoso
e tradicional dos pais, a do lixo cultural especista.
Inúmeras pesquisas atestam os benefícios
dos animais na vida dos humanos, de cães que auxiliam
nas terapias, nas visitas hospitalares, nos asilos, na orientação
de deficientes visuais e no combate ao crime. Na direção
dos bons propósitos, congratulo-me com os defensores
que abraçam a árdua tarefa social de defender
as criaturas que os insociáveis abandonam. Congratulo-me
com os que refutam a tese dos governantes, em que o extermínio
é a melhor saída. Congratulo-me com os que
encaminham, cuidam, castram com seus próprios recursos,
com subsídios de veterinários competentes,
dignos, que oferecem alternativas e exames sofisticados,
bem diferente dos mercenários que exibem laudos de
condenação, os de sacrifícios.
É bom lembrar, caros, que a sensibilidade
e as emoções afloram na alegria e na tristeza.
O afeto que se cultiva é perene, jamais se desvanece,
e mais, só transfere amor quem já o teve e
o cultivou, que o acatou como marca registrada da coerência,
da honestidade, da sensatez e da bondade.
João O. Salvador
Biólogo
salvador@cena.usp.br