Homenagem a José Saramago
Fonte:
Saramago escreveu sobre a elefanta Susi, do zoológico
de Barcelona, que está sofrendo com sua situação
de aprisionamento. ONGs cogitaram que ela pudesse morrer de
tristeza.
(Leia a notícia no jornal El
País de 2009).
Abaixo o texto de Saramago, que também pode ser lido
no blog do autor:...............................
http://caderno.josesaramago.org/2009/02/19/susi/
Susi por sua vez continua encarcerada no Zoológico
de Barcelona, vejam noticias atualzadas no site espanhol "Libera
a Susi"
Susi
por José Saramago
Pudesse eu, e fecharia todos os zoológicos do mundo.
Pudesse eu, e proibiria a utilização de animais
nos espectáculos de circo. Não devo ser o único
a pensar assim, mas arrisco o protesto, a indignação,
a ira da maioria a quem encanta ver animais atrás de
grades ou em espaços onde mal podem mover-se como lhes
pede a sua natureza. Isto no que toca aos zoológicos.
Mais deprimentes do que esses parques, só os espectáculos
de circo que conseguem a proeza de tornar ridículos
os patéticos cães vestidos de saias, as focas
a bater palmas com as barbatanas, os cavalos empenachados,
os macacos de bicicleta, os leões saltando arcos, as
mulas treinadas para perseguir figurantes vestidos de preto,
os elefantes mal equilibrados em esferas de metal móveis.
Que é divertido, as crianças adoram, dizem os
pais, os quais, para completa educação dos seus
rebentos, deveriam levá-los também às
sessões de treino (ou de tortura?) suportadas até
à agonia pelos pobres animais, vítimas inermes
da crueldade humana. Os pais também dizem que as visitas
ao zoológico são altamente instrutivas. Talvez
o tivessem sido no passado, e ainda assim duvido, mas hoje,
graças aos inúmeros documentários sobre
a vida animal que as televisões passam a toda a hora,
se é educação que se pretende, ela aí
está à espera.
Perguntar-se-á a que propósito vem isto, e eu
respondo já. No zoológico de Barcelona há
uma elefanta solitária que está morrendo de
pena e das enfermidades, principalmente infecções
intestinais, que mais cedo ou mais tarde atacam os animais
privados de liberdade. A pena que sofre, não é
difícil imaginar, é consequência da recente
morte de uma outra elefanta que com a Susi (este é
o nome que puseram à triste abandonada) partilhava
num mais do que reduzido espaço. O chão que
ela pisa é de cimento, o pior para as sensíveis
patas deste animais que talvez ainda tenham na memória
a macieza do solo das savanas africanas. Eu sei que o mundo
tem problemas mais graves que estar agora a preocupar-se com
o bem-estar de uma elefanta, mas a boa reputação
de que goza Barcelona comporta obrigações, e
esta, ainda que possa parecer um exagero meu, é uma
delas. Cuidar de Susi, dar-lhe um fim de vida mais digno que
ver-se acantonada num espaço reduzidíssimo e
ter de pisar esse chão do inferno que para ela é
o cimento. A quem devo apelar? À direcção
do zoológico? À Câmara? À Generalitat?
RACIONALIDADE IRRACIONAL
por José Saramago
Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais
do que a razão a nossa espécie. E o instinto
serve melhor os animais porque é conservador, defende
a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer,
porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas
terríveis entre animais, o leão que persegue
a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece
que o nosso coração sensível dirá
«que coisa tão cruel». Não: quem
se comporta com crueldade é o homem, não é
o animal, aquilo não é crueldade; o animal não
tortura, é o homem que tortura. Então o que
eu critico é o comportamento do ser humano, um ser
dotado de razão, razão disciplinadora, organizadora,
mantenedora da vida, que deveria sê-lo e que não
o é; o que eu critico é a facilidade com que
o ser humano se corrompe, com que se torna maligno.
Aquela ideia que temos da esperança nas crianças,
nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são
seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente
a essa ideia eu digo: pois sim, é tudo muito bonito,
são de facto muito simpáticos, são adoráveis,
mas deixemos que cresçam para sabermos quem realmente
são. E quando crescem, sabemos que infelizmente muitas
dessas inocentes crianças vão modificar-se.
E por culpa de quê? É a sociedade a única
responsável? Há questões de ordem hereditária?
O que é que se passa dentro da cabeça das pessoas
para serem uma coisa e passarem a ser outra?
Uma sociedade que instituiu, como valores a perseguir, esses
que nós sabemos, o lucro, o êxito, o triunfo
sobre o outro e todas estas coisas, essa sociedade coloca
as pessoas numa situação em que acabam por pensar
(se é que o dizem e não se limitam a agir) que
todos os meios são bons para se alcançar aquilo
que se quer.
Falámos muito ao longo destes últimos anos (e
felizmente continuamos a falar) dos direitos humanos; simplesmente
deixámos de falar de uma coisa muito simples, que são
os deveres humanos, que são sempre deveres em relação
aos outros, sobretudo. E é essa indiferença
em relação ao outro, essa espécie de
desprezo do outro, que eu me pergunto se tem algum sentido
numa situação ou no quadro de existência
de uma espécie que se diz racional. Isso, de facto,
não posso entender, é uma das minhas grandes
angústias.
José Saramago, in 'Diálogos
com José Saramago'
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